quinta-feira, novembro 01, 2012
A VIGÍLIA DO PEQUENO EMIL
(Para E. M. Cioran)
Ora, pequeno, por que não dormes? Contra o quê vigias? Dorme! Que mal te fizeram todos? Não vês que se não cochilas ninguém mais dormirá tranquilo? Anda!
quarta-feira, outubro 24, 2012
VERTIGEM E SIGNIFICAÇÃO
15
Código aberto, recebido em pareidolias, Mundo é paisagem. Paisagem é espelho. Mundo é sentido. Idiossincrasia. Idiossincrasia compartilhada é convenção.
segunda-feira, outubro 22, 2012
VERTIGEM E SIGNIFICAÇÃO
14
A abertura perene do código, que é Mundo, chama-se pareidolia. Essencialmente, esta é vontade de sentido posta em prática. Pareidolia é pois resultado efetivo de todo revirar de olhos.
domingo, outubro 21, 2012
terça-feira, outubro 02, 2012
HISTÓRIAS DE NÁUFRAGOS E DEGREDADOS
Diz um cronista hoje
ignorado e caído em descrédito, que Bartolomeu Dias não batizou o Cabo das
Tormentas pelo motivo que lhe creditou a história oficial. A ter razão, do que
com toda sinceridade duvido, as verdadeiras tormentas se atiraram sobre o
capitão e comandados não quando estes fustigavam o mar, que, aliás, era
tranquilo àqueles dias, mas quando aportaram para reabastecimento de água doce.
Mal desembarcaram e um exército de mulheres nuas, belas, mas com pelos nunca aparados,
os cercou por todos os flancos e os tomou para orgias que só terminavam com a
morte dos escravos. Mulheres de amores violentos! Consta que apenas cinco
homens conseguiram sair vivos. Entre eles Bartolomeu, nosso cronista e o cozinheiro.
El-Rei, com o romantismo e a fantasia de quem nunca viveu perigo real, alimentou,
desde que soube do ocorrido, secreto desejo de conhecer o lugar, a que denominou
Cabo da Boa Esperança. Fico a pensar se não serão estas mesmas mulheres a razão
do mito encontrado por Malinowski entre os longínquos trobriandeses: “A outra
região, Kaytalugi, é terra de mulheres apenas, onde nenhum homem consegue
sobreviver. As mulheres que a habitam são lindas, grandes e fortes, andam nuas
e não raspam os pêlos do corpo (o que é contrário aos costumes). Devido à
grande violência de suas paixões, essas mulheres representam imenso perigo a
qualquer homem. Os nativos nunca se cansam de descrever graficamente o modo como
elas satisfazem seus próprios desejos sexuais se algum náufrago desventurado
lhes cai em mãos. Ninguém consegue sobreviver nem mesmo por um curto espaço de
tempo aos brutais ataques amorosos dessas mulheres”. Mas o degredado Malinowski,
assim como El-Rei e o celibatário Carbajal, ou ainda nosso desacreditado
cronista, não estava livre de devaneios. Ora, quem está?
sábado, setembro 29, 2012
À IMAGEM E SEMELHANÇA
Olhar o vazio com fome de pleno. Olhar
o azul com fome de céu. Olhar o outro com fome de próprio. Fazer-se mundo. Membrana. Pele que tudo conforma. Fora de todo
dentro. Fazer-se nuvem da nuvem. Ser-poeira da poeira. O todo do todo-nada. Auto-aparição assutada.
Fulgurar-fantasma. Eu sou! Tu és? Ele é? Nós somos? Vós sois? Eles são? “Que outro Deus
há além de Mim?”
domingo, setembro 23, 2012
DE ONDE VÊM OS FANTASMAS
Como o rosto que riu além da anedota
e agora precisa voltar ao blasé, nós, que quase passamos da estupefação ao
bocejo em poucos séculos de marcha da ciência sobre o Mistério, temos hoje o
desafio de não deixar a expressão cair de vez. É preciso ainda ver sentido na
ciência. Nossa luta agora é contra o Tédio. Então, homem de meu tempo, guardião
de nossa máscara de Monalisa, é com boa expectativa que de minha janela, binóculo
regulado, foco os velhos telhados lá em baixo. A ciência quer avançar sobre eles
(sobre os fantasmas que lá brincam em dias de sol). Só lhe falta pequeno passo.
Uma equação em teste por cientistas do MIT, a envolver matemática, física, ótica
e um quê de solidão (a quantificação deste é o que ainda lhe resiste – até
quando?) pretende explicar porque fantasmas preferem velhos telhados para orgias.
Dizem (na verdade não dizem e tive que supor tudo sozinho) que quando diversos
fatores de luz, temperatura e solidão se combinam, o fenômeno ocorre. Pode
acontecer mais de uma vez no ano ou demorar eternidades entre uma vez e outra. Mas
se algum dia o sol não está tão quente e o céu nem tão claro e se o vento não é
mais que morna brisa, e se, além disso, algum solitário os olha do alto, então
poderá ver, às nove e meia, fantasmas (nada discretos!) a se reproduzirem sobre
velhos telhados. São nove e vinte e nove. A condição subjetiva me parece ideal.
Lá fora, salvo engano, tudo de acordo. Se todas as variáveis realmente se
combinam, então logo-logo terei boa dose de anti-tédio.
segunda-feira, setembro 17, 2012
O CAMPEÃO
![]() |
Fotografia de Edilson Pantoja |
quinta-feira, setembro 06, 2012
O OITAVO DIA
No princípio era
Silêncio...
Sete dias sobre a Terra. Na Terra. Nela. Um com Ela. Sono profundo. Sonho inacreditável...
Sonhou-se terra.
Era a própria terra a Sonhar-se. Escura. Úmida. Una. Tudo Ela. Ela, todas as coisas dormentes. A Terra em sono profundo. Em sonho a sonhar-se...
Então, o sonho da terra trouxe mãos. E as mãos entraram na Terra. Rasgaram. Dor indizível. As mãos a rasgarem a Terra. Abrirem a Terra. Uma porção da terra as mãos tiraram. E à porção as mãos amassaram. E a porção da terra sonhava-se amassada nas mãos, entre os dedos, a formar-se sonho. E a porção da terra era Ele.
Era?!
Sete dias sobre a terra Ele sonhou-se Terra. Terra primitiva. Terra sonhada pelas mãos que ele sonhava. No alto da montanha, a olhar o abismo aberto sob os pés, Ele se pergunta: Era?
Terrível, o sonho. Terríveis, as mãos.
Mãos de fogo. Ágeis. Rudes. A moldarem o barro. E o barro virou-se cabeça. Virou-se pernas. Membros. Órgãos. E as mãos a moldarem mãos. Mãos de sonho... Mas então acorda.
Dormira? Outro sonhar diante de si? Ou pesadelo? Não sabe dizer. Posicionar-se ante tantas imagens. Reconhece de pronto, não obstante, tudo muito amplo. Sua capacidade com as imagens. Amplo. Algum tipo de lembrança? Própria? Inventada? Não sabe dizer. Posicionar-se ante as imagens. Diante de si a mão do cirurgião-robô dá o último enter para a configuração de seu novo cérebro. Cérebro eletrônico. Sintético, como também é agora sua pele.
O gesto do cirurgião lhe provoca breve tontura, após a qual vê, ao lado da mesa cirúrgica, o cérebro orgânico recém retirado. Encontra-se revestido por um tecido transparente e comprimido numa espécie de tubo de ensaio cujo rótulo, também eletrônico, mas ainda em branco, aguarda catalogação.
Sete dias sobre a Terra. Na Terra. Nela. Um com Ela. Sono profundo. Sonho inacreditável...
Sonhou-se terra.
Era a própria terra a Sonhar-se. Escura. Úmida. Una. Tudo Ela. Ela, todas as coisas dormentes. A Terra em sono profundo. Em sonho a sonhar-se...
Então, o sonho da terra trouxe mãos. E as mãos entraram na Terra. Rasgaram. Dor indizível. As mãos a rasgarem a Terra. Abrirem a Terra. Uma porção da terra as mãos tiraram. E à porção as mãos amassaram. E a porção da terra sonhava-se amassada nas mãos, entre os dedos, a formar-se sonho. E a porção da terra era Ele.
Era?!
Sete dias sobre a terra Ele sonhou-se Terra. Terra primitiva. Terra sonhada pelas mãos que ele sonhava. No alto da montanha, a olhar o abismo aberto sob os pés, Ele se pergunta: Era?
Terrível, o sonho. Terríveis, as mãos.
Mãos de fogo. Ágeis. Rudes. A moldarem o barro. E o barro virou-se cabeça. Virou-se pernas. Membros. Órgãos. E as mãos a moldarem mãos. Mãos de sonho... Mas então acorda.
Dormira? Outro sonhar diante de si? Ou pesadelo? Não sabe dizer. Posicionar-se ante tantas imagens. Reconhece de pronto, não obstante, tudo muito amplo. Sua capacidade com as imagens. Amplo. Algum tipo de lembrança? Própria? Inventada? Não sabe dizer. Posicionar-se ante as imagens. Diante de si a mão do cirurgião-robô dá o último enter para a configuração de seu novo cérebro. Cérebro eletrônico. Sintético, como também é agora sua pele.
O gesto do cirurgião lhe provoca breve tontura, após a qual vê, ao lado da mesa cirúrgica, o cérebro orgânico recém retirado. Encontra-se revestido por um tecido transparente e comprimido numa espécie de tubo de ensaio cujo rótulo, também eletrônico, mas ainda em branco, aguarda catalogação.
quarta-feira, setembro 05, 2012
INTRUSOS
Escoraram-se na parede de tábuas rente
à calçada entre gargalhadas. Farofa de amendoim saltava-lhes boca afora quando uma
porta se abriu a suas costas. O tombo os empurrou para o ambiente atrás dela. Pouca
luz. Fumaça de cigarro. De pronto, oito olhos os encararam desde a mesa no
centro da sala. Um dos pares de olhos congelara no ar o corte do baralho. Dois outros
trocaram cartas furtivas sob a mesa. Um dedo indicador lhes ordenou silêncio. De
repente um clic atrás da fumaça. Os dois meninos correram de volta à rua e só pararam três quarteirões depois. Pulmões
em brasa. Corpos vergados. Mãos nos joelhos. Corações boca afora.
terça-feira, setembro 04, 2012
REZA ANTIGA LENDA
babilônica que o pai da poesia
nunca foi Prometeus, mas Enki. Também sugere que Moisés e Hesíodo, que nunca se
deram bem, foram condenados ao silêncio pelos séculos dos séculos sob pena de darem
fim ao mundo se um dia falarem. Sobre Homero, que na verdade nunca foi grego e
se chamava Gulalak, palavra de raiz suméria que significa louco, se lhe atribui
o que ele atribuiu a Hércules. Este se chamava Hércules mesmo embora também não
fosse grego nem, por suposto, tenha realizado doze trabalhos. A tabuleta cuneiforme
com tais informações jaz ignorada num dos salões do Louvre junto a contratos de
terra e objetos pessoais de Senaquerib. Crasso erro de catalogação.
segunda-feira, setembro 03, 2012
RUMINAÇÕES DO HOSPEDEIRO
Vozes que nada dizem abrem trilhas
em meu pêlo. Pulgas! Bichos surdos e bêbados que andam em turba. Daí o
falatório. Nunca darão com a fonte três camadas abaixo da pele. Se um dia
descessem, dariam com ela. Voz do sangue. Fonte das fontes. Seria o suficiente.
Seria o ideal. Voz do sangue só fala a surdos. Mas pulgas são bichos de horizonte
e não de abismo. E não me consta que saibam acolher o inaudível.
domingo, setembro 02, 2012
O EQUÍVOCO
Quando o céu se cobre de cinza ele enseja mostrar-se. Nunca apareceu e
o ensejo é apenas imaginado. As pessoas vêm à porta da rua ou ao quintal e se
põem a perscrutar. A mão em pala. Olhos no cinza. Ouvidos ao vento. O ciciar é
todo som. Mulheres velhas tremulam em êxtase. Novas desejam tê-lo. Homens
balbuciam gestos. E até hoje ninguém soube dizer palavra. Como se chama. O que
é. Um dia, depois que as nuvens brancas tornaram sobre o azul, um jovem quis
escrever. Mas a anciã saltou: escrever autêntico é silencio. Viu-se nisto algo
mais que ensejo. E nunca mais se ousou.
sábado, junho 02, 2012
NA COLÔNIA DE CORAIS
Onde a voz que clamava no deserto, senhora de sua solidão? Onde?! Agora que vozes formam corais e fingem que nelas o deserto não grita, onde aquela? Aquela que dissonava, aquela, intempestiva, ruidosa, onde?! Mas, claro, que não anuncie novos deuses ou nos ameace com a ira dos antigos: uma que declare, senhora de sua solidão e nudez, a nudez de todos os deuses! Contra toda idolatria! Todo coral! Uma voz, uma só, ao menos uma vez!
... Mas, ao mesmo tempo, sem que lhe possa identificar a procedência (se de coral ou deserto), ouço uma que, num sussurro quase inaudível, me pergunta: Para quê?! Para quê?!
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