sexta-feira, agosto 10, 2007

BATALHA NAVAL

Mal abri a janela, Mariana saltou outra vez de dentro de mim. O rosto voltado para trás a me olhar de longe, o vinco de dor mais suposto que visto entre as sobrancelhas...
Como o lugarejo de nossos dias envelheceu! Pessoas, casas e até ruas inteiras já não existem. E se eu mesmo ainda permaneço, embora entre rugas, devo àquela lembrança, bafejo de eternidade que me afaga o ser.
Mariana está sempre comigo, mas em nenhum instante tem mais cor do que quando, pela manhã, abro as janelas. Mal as abro, e ela já na distância do barco, a me ver... Então me entrego, horas, a fitar o rio e travar com ele esta nossa guerra de cinqüenta anos. E meu olhar, como se fora um canhão – desses de filmes de pirata – se põe a lhe atirar as mesmas perguntas, projéteis de minha dor: “Nunca mais? Nunca mais?”. Ao que ele, em sua carreira sem pressa, mas resoluto, como a conduzir aquela mesma embarcação, lança-me também os seus: “Nunca mais! Nunca mais!”.

10 comentários:

clarice ge disse...

isto me fez chorar.
maluca eu, penso que es meu freud.
sei que nada a ver com o que pensaste, colhi o que me cabia...(como sempre)
estranhas coincidencias, ou ...
carinhos por ti, porque me fazes ler-me.

PS: mas refugo o nunca mais, quero e espero o para sempre!

diovvani mendonça disse...

Edilson, meu velho... Mas que turbilhão de sentimentos, essa sua Batalha Naval!!! Maravilha, coisa de alma viajada como a sua. Certa vez escrevi "A rua de minha infância / se desfez em prêdios / e casas novas"
^^^Abraço^^^

Lu disse...

Oi Edilson. Quanto tempo, não?
O bom de retornar a cais conhecidos é essa sensação de receptividade tão boa.
A resposta enfática do Nunca mais! é faca de dois gumes. Se de um lado encerra sonhos, de outro aplaca a fantasia do impossível.
Beijo

gdec disse...

Obrigado Edilson pela sua reacção à minha provocação -sou sempre perseguido por estas rimas fáceis...-
A sua prosa é óptima como sempre.
Um abraço
Geraldes de Carvalho

Chucho disse...

Sim j� vejo a cor de Mariana pela manh� quando a janela se abria... mas o cheiro , quando nos falas do seu cheiro???

marcos pardim disse...

edilson, meu caro, bom retorno à labuta. seguinte: não consegui ler este teu texto. um banner, com o título de neo counter, que eu não consegui remover, me impediu a leitura. de todo modo, para não perder o costume, lambisquei um desjejum (rss..) 1 abraço. .

gdec disse...

Gostei muito da sua visita ao meu blog e gostei que gostasse, como eu, do tinto não só pela alma mas também pelo corpo .
um abraço
Geraldes de Carvalho

Pedro Pan disse...

, tem vezes em a vida que perguntamos assim. e obtemos esta resposta. dura, triste...
, abraços meus.

Jefferson P. disse...

.. já travei uma longa batalha com uma certa Mariana.. e venci!

abrç

jorge mendes disse...

salve, edilson. valeu a visita lá no ao fim da noite. então vamos afinando as dissonäncias e caindo de cabeça nesse mar de marianas. forte abraço