terça-feira, abril 17, 2007

O RETORNO DE SADI (um texto para leitores nada resfolegantes)

Eu também voltei a Marajupema (arquivo pessoal - 2004)



I

Mestre Ambrósio acordou e ficou ali, pestanejando no escuro, a trovoada açoitando a palha de ubim na cumeeira, os trovões quebrando a casca da noite...
Janeiro chegava com força.
Mestre não levantou. Vontade, até que teve. Mas disposição, cadê?, naquele frio enorme que a ventania empurrava parede adentro pelas brechas da palha? O pensamento toldado dentro de si, denso como a enxurrada que a tudo arrastava no terreiro, maior que a noite, talvez. Já enrolado no lençol, deu pelas beiras da rede e as puxou sobre o corpo. Apenas o rosto quis descoberto. Permaneceu embrulhado, imóvel, escrito um casulo, não fossem as pestanas que se mexiam, olhando aquele nada-escuro... Não ouviu quando um galo bateu asas e cantou no galinheiro, nem quando um grilo, quase debaixo da rede, no canto da parede, entre as palhas, cricrilou em louvor da noite grande. Nem mesmo à laqüera dos cachorros, encegueirados nalgum bicho corredor, ouvia. E cachorro ora corria, ora acuava, ora apanhava...
Mas mestre Ambrósio a nada disso pode assuntar. Insônia. Há muito que acordara. Um sonho lhe roubando o sono a custo conseguido e o deixando naquela cuíra. Quis ligar o rádio, saber da hora, mas não se moveu. O corpo mumificado pelo cismar entiriço, o chiado da chuva na folhagem. Os trovões ribombando mundo afora, rio acima, os céus fecundando um inverno novo nas cabeceiras. Todo cuíra era o Mestre. Na memória um lampejo, vaga recordação do sonho ladrão: via-se (dormira mesmo?) numa agonia, num desespero sobre o rio, que espumava e corria dando voltas em torno de si mesmo, fugidio. Loucura. Possível? Homem e rio fugindo um do outro. Tudo muito nebuloso, como são os sonhos. Só a areia do porto, branquinha-branquinha entre o verdume das árvores, conseguiu fixar. Ainda quis perguntar sobre o sentido daquele sonho, mas sabia, de antemão, não ser necessário. Não precisava daquela pergunta. Bom seria se precisasse. Ah, quem o dera! Mas não precisava. O sonho falava mesmo não era de Sadi? Tal certeza era a única claridade naquele momento. Não é que no dia anterior, descido da mesma carruagem de mistério em que desaparecera, Sadi tornara a Marajupema? A idéia de que descera de alguma carruagem partiu de Peixe-Frito. Estava na escatologia, disse. Saído de onde e com que artes - e vindo porquê, principalmente -, é o que o velho tentava espiar naquele truvo de mistérios.

II

Um risco de isqueiro rasgou um clarão na noite para as bandas da casa vizinha, separada da do Mestre por um pequeno terreiro, uns pés de mamão e umas goiabeiras. Alguém acendeu uma lamparina e pigarreou. Era Peixe-Frito. Lamparina à mão, foi até a biqueira espiar a laqüéra dos cadelos. Mas o escuro não lhe quis mostrar nada. Escutou foi um grunhido feio, um cachorro a latir como se gritasse, apanhando, no rumor que parecia vir da casa de forno, caminho do porto. Quis pegar a espingarda, ir olhar o que era, mas a lanterna não tinha carrego. Além do mais, a chuva não aliviava. “Puraqué! Puraqué!, chamou, receoso, pelo cachorro que apanhava. De repente aquilo silenciou, só a chuva a chiar na palha, a cair capoeira a dentro... Pensou na “voz das muitas águas”, do Apocalipse. Andava, desde a volta de Sadi, com o Apocalipse que não lhe saía da cabeça. Matutava que tudo aquilo estivesse de alguma forma na escatologia. Ouvira seu Davi pregar certa vez sobre escatologia e se apossou da palavra. Sentia-se importante quando a pronunciava. Dela usara e abusara como símbolo de status entre os caboclos, um sinal de sua baronidade. Agora temia que aquele acontecimento tivesse mesmo a ver com o Apocalipse. Ralhou pro escuro, chamou um palavrão, querendo afastar aquela marmota. Mas o pronunciou já quase inaudível, arrependido da iniciativa. Desconjurou baixo quando um arrepio lhe percorreu o espinhaço, do nada. Voltou com passos lentos, receosos, mas querendo chegar logo ao quarto. Ao entrar observou por um instante a mulher, que dormia, agora iluminada pela lamparina. Sentiu um certo orgulho da mulher nova e bela que tinha. Deu mais dois passos, pôs a lamparina no mocho, pegou a Bíblia, sentou-se na rede. Teve, teve... Molhou o dedo na língua, começou a folhear o livro. Fez isto por longo tempo. Parou no capítulo onze do Apocalipse. Reconheceu-o por haver ali, à margem da página, um desenho feito por seu Davi. Vergou-se até bem próximo da lamparina, fixando as letras por longo tempo num misto de fascínio e temor. Fechou, deixando o dedo entre as páginas a marcar o capítulo. Pôs a outra mão no queixo, acariciando a carapinha. Na rede vizinha, Maria Lurdes fingia sono, a tudo observando por entre os cílios compridos. Mas que diacho de arte Antônio andava agora inventando, tamanha noite? Espiava... O marido imóvel como visagem, a modo olhando a luz da lamparina naquela sua luta contra a opressão da noite escura. Os cachorros voltaram a latir e correr e, de novo, a apanhar. Maria espiava o marido por trás dos cílios compridos, a enorme sombra que a luzinha projetava na parede, atrás dele, como se o espreitasse... No fundo, assustada com todo aquele alvoroço que era a volta de Sadi. Mas a certeza de que o comportamento de Peixe-Frito prometia nova presepada, a fez rir consigo, acostumada que era às tantas esquisitices do marido. Com isto e mais o chiado da chuva, que já lhe caía como acalanto, relaxou. Em pouco adormeceu. Peixe-Frito continuou sentado na rede, Bíblia no colo, mão na barbicha, cabeça na escatologia. Buscava uma explicação bíblica para aquele fenômeno. Esforçava-se para lembrar da passagem em que o profeta Elias subiu num carro de fogo. Pena que seu Davi não fizera nenhum desenho na página. A Bíblia teria, certamente, uma explicação. Para todo ocorrido neste mundo, era só abrir, procurar, e lá estavam os mais claros sinais para se interpretar o acontecido. O mundo todo cabia no Apocalipse. E o mundo todo se dividia, seu Davi lhe explicara isto, em duas grandes partes: o Bem e o Mal. Os dois numa briga sem trégua, um a querer devorar o outro, até a luta final, quando o Mal finalmente seria vencido. Tava tudo na escatologia de seu Davi. Olhou a contra-capa. Havia ali uma dedicatória a caneta, onde se lia: “Irmão Antônio Ferreira, tendes aqui o auxílio para os momentos difíceis. Que o Altíssimo vos abençoe. Rev. David Blake”. O texto era sabido de cor, gravado no exato instante em que seu Davi o leu, após escrever. Tinha saudades de seu Davi. Não tivesse morrido, agora saberia ler... Repetiu no pensamento a parte que mais gostava daquelas palavras: “Que o Altíssimo vos abençoe”. Considerou que realmente precisava do auxílio do Altíssimo. Um sinal, Altíssimo, um sinal é o que peço. Precisava de um sinal. Saberia o que fazer se lhe fosse dado um sinal. Era preciso atenção, cautela, paciência, a paciência de quem espera no mutá. Assim que amanhecesse ia na casa de Zezé, ver o afilhado. Pena que o menino tivesse doente. E o tempo não economizava... Dedo no Apocalipse fechado, os olhos distraídos na chama da lamparina já se extinguindo, ressentida pelo querosene gasto naquela vigília hermenêutica, a noite ameaçando tomar o quarto... Precisava de um sinal. Passou-se... Peixe-Frito arregalou os olhos de repente, uma compreensão a lhe iluminar o espírito. Acreditava ver o sinal que desejava: o Bem e o Mal não se degladiavam ali mesmo, sobre o morrão da lamparina à sua frente?! Mas a chama apagou-se, devorada pela noite. E no escuro, perplexo, Peixe-Frito sussurrou para si mesmo:
- O morrão era o Valo do Armagedão... – e em seguida, num acréscimo, corretivo: Não. Ainda não. É só o princípio das dores...
Mas Peixe-Frito teve que interromper o raciocínio escatológico para ouvir o que Maria Lurdes, nesse instante, balbuciava a dormir.




III

Mestre Ambrósio não assuntou o movimento em casa de Peixe-Frito. Atentasse, teria notado a luz acesa por entre as frestas da palha, a inquietação da chama de um lado a outro como se lutasse. Um pouco de atenção, por menor que fosse, lhe teria também mostrado, na casa do lado oposto à de Peixe-Frito, a inquietação de Saracura. Teria notado angústia semelhante nas casas do outro lado do terreiro em torno do qual se erguiam as casas de Marajupema. Casas de caboclo: palha de ubim, ripa, taipa... Em muitas delas, paredes só nos quartos, como pede a moradia daquela gente. O pensamento permanecia truvo. A cisma no mistério da volta. O receio no futuro. Mergulhado no desassossego, Mestre se deixou arrastar naquela correnteza medonha a rebojar dentro de si. Quis (e podia evitar?) rememorar os acontecimentos que antecederam a cena do porto, momento em que, não sabe como não teve um passamento, avistou Sadi, demanhãzinha, acocado, cavocando a areia da beira do rio com um graveto. Ainda agora, se não tivesse certeza de que era Sadi mesmo que ressonava ali na varanda, não acreditaria. E dava para acreditar? Deixara a festa logo que o ano novo entrou. Deixou-a degostoso. Antonhão e Chico Magro tinham aproveitado a boca melada de cachaça pra botarem em Zezé Moreira. Rebuliço difícil de acalmar, os dois querendo porque querendo bater no rapaz, desforrar uma rixa tempos ardida. Mestre ajudou a apartar a briga, ralhou sério com Antonhão. Como era que ele, um homem já de idade, pai de família, se metia num negócio desses? Antonhão não disse nada, mestre não sabe nem porquê. Sabe, porém, que não deve ter gostado. Quanto a isso, iria tomar cuidado. Antonhão tinha fama de traiçoeiro. Comentavam que carregava morte nas costas, que viera fugido do Maranhão. Mestre iria tomar cuidado. Apartada a briga, acompanhou a muito custo Zezé Moreira até em casa. Também melado, Zezé só falava em pegar a doze e encher a cara de Antonhão de chumbo. Foi um rebuliço difícil de acalmar. Mestre ficou em casa de Zezé ajudando Andrelina a aquietá-lo. Conversou muito, aconselhou, e foi com dificuldade que o demoveu de querer voltar e dar um tiro em Antonhão, “encher a cara daquele covarde de buraco de chumbo.” Mas Zezé afinal se acalmou. Quando finalmente dormiu, já era hora do mestre ir às malhadeiras. Desceu ao porto, tomou a canoa e subiu o rio. O dia principiava a clarear, mas ainda indeciso com que cores se vestia. Por enquanto tudo era um lusco-fusco só, uma luz-mortiça-de-dia-ainda-quase-noite, de ano-novo-ainda-meio-velho. Quem o dera que as malhadeiras tivessem peixe! Pusera uma rede na boca do Coraci e outra na margem maranhense, no remanso logo abaixo do outeiro onde ficava a capoeira de seu Tomás, debaixo das gameleiras. Eram lugares muito bons de peixe noutros tempos. E agora, fora do Coraci, mesmo naquela precisão, ainda eram os que escapavam. A despesca não fora das melhores. As redes até que, surpreendentemente, fizeram sua parte. Tucunarés, rodeiros, aracus, dois surubins purrudos. Mas os jacarés e as piranhas tinham feito desgraça. Rebentaram as malhadeiras e devoraram partes dos peixes. Era sempre assim nos últimos tempos, Deus dando de um lado, o Diabo roubando de outro. Fartura-fartura mesmo, nunca mais se soube o que era em Marajupema, que gosto tinha, desde... Ora, se nem mesmo Saracura já salgava peixe! Mantinha na puxadinha da cozinha, amontoados e pretos da tisna com que a fumaça os regava, os sacos já roídos pelos dias, o sal se derramando como se cansado de esperar pelo peixe que não vinha, sal ainda do tempo de seu Faustino... Faustino, ah!, Faustino, que fizeste que levaste contigo toda aquela fartura, meu amigo? A lembrança do velho marreteiro, trazida à tona de súbito, provocou no mestre um suspiro fundo, misto de lamento e saudade. Fosse o velho vivo, mestre Ambrósio sabia ter agora a quem recorrer. Marajupema, em quem se pegar. Quando Sadi era ainda menino, tão logo começou sua mania por barro, por santos, seu Faustino quis levá-lo a Belém para internar no Juliano Moreira. Mestre Ambrósio não deixou. Calcula agora, inconscientemente, quanto sofrimento não teria evitado... Mas logo se recobra e se consola com o pensamento de que tudo tinha mesmo era que acontecer. Que pode o homem fazer contra seu destino? E agora Sadi voltou... Mestre pisca apressado. Precisa evitar os devaneios e pensar na manhã em que achou Sadi, rememorar à procura de algum sinal, uma luz que ilumine aquela situação. Dos dois surubins ficaram só os cotós das cabeças, uma lástima! Era então querendo defumar as redes após consertá-las que ele retornava ao porto. Empurrada mais pela correnteza que pelas remadas, a canoa, a bem dizer, bubuiava. Mas não era só a canoa. Na lembrança do mestre o rio também parecia indisposto, preguiçoso, sovina até no correr, mostrando assim uma face que não era bem a sua, metido num ar mesquinho, coberto daquelas espumas que a noite formara nas cachoeiras acima e que, naquela manhã, especialmente naquela manhã, mal comparando, pareciam era uma coroa fúnebre com que se coroava a descer seu lento cortejo entre as ribanceiras, que também, naquele momento, eram como paredes duma cova, tamanha a tristeza com que se cobriam. “Te desconjuro, peste!”, diz o mestre em pensamento ao se dar conta das imagens que formara, bem como da interpretação que fazia. Viu nisso tudo um péssimo sinal. Estremeceu por dentro e sentiu os olhos marejarem quando imagens da desgraça passada lhe assaltaram... Inácia, Das Neves, Rosa...Rosa era sua afilhada, querida como filha. Mestre não quer mais pensar tais pensamentos, lembrar tais lembranças, mas elas o assaltam, cruas, vivas como quando vistas, Rosa toda comida de piranha, meu Deus... E as lágrimas crescem como a chuva lá fora. Não fosse a chuva grossa, o teriam ouvido soluçar. E agora, meu Deus?, tudo de novo? Sadi, ô meu filho, porque, porque voltaste? Porque me apareceste na beira do rio? Me deixasse querer defumar minha malhadeira, expulsar o mau-ar nelas e na água impregnado. A defumação libertava o rio. Uma defumação afastava todas as pragas do rio e de Marajupema, meu filho. É, afastaria. Também, não era desleixo passar tanto tempo sem buscar proteção? Uma forte defumação nas redes, nas casas, nos remos, canoas, espingardas, cachorros... Eu não ia mais botar as redes n’água antes de defumar. Não precisava, meu filho, não precisava que tu voltasse... E o velho chorou noite adentro em seu desespero. E o corpo se foi ressentindo daquela longa vigília, do peso daquele pensar, da força dos soluços, até que se moeu na exaustão, e adormeceu. Então sonhou com o retorno ao porto naquela manhã em que encontraria Sadi, a canoa de bubuia, o rio seguindo no cortejo. Mestre Acendeu um porronca como para se distrair dos tantos pensamentos e se foi espalhando fumaça rio abaixo. Aqui e acolá uma remada, um descansar o remo n’água, uma baforada. Olhou o estirão à frente. Na curva vista de longe as duas margens pareciam se tocar, encerrando o rio. E mestre Ambrósio pensou, consciente de que fantasiava - mas uma consciência de quem sonha - como querendo descansar do fardo mental, que o rio era só um grande lago, um açude como aquele que viu no sertão maranhense, menino ainda. Mas a lembrança logo transformou o pensamento num temor, o temor de que, como o açude que vira, o Gurupi se tornasse de vez um mar de precisão, virasse um lago de água salobra e morna, sem peixe com que aliviar a fome; que as margens, agora verdes, se tornassem um areal seco, por falta de defumação...
Mestre enrolado na rede sonhava com a volta das malhadeiras, a canoa bubuiando... Não se dava conta de que o lento bubuiar aos poucos devorava o estirão. Passou-se naquela consumição até que afinal a canoa já deslizava na dobra da curva. Logo daria no porto. Mestre olhou no fundo da canoa os peixes comidos. Pensou outra vez em defumar e consertar as malhadeiras antes de torná-las à água. Foi nesse momento, ainda na curva que encobria o porto que, do alto dum pau-de-breu, um ticã gorjeou. Mestre desconjurou, rebatendo o mau-agouro. Pensava, no escuro do sonho, ruminando os acontecimentos da manhã anterior, que não fora um bom sinal para o novo ano, tudo aquilo. Primeiro, a lástima com as malhadeiras; depois, aquele ticã, tão no cedo. Tudo então não era mesmo um anúncio do que viria em seguida? A canoa terminava a dobra do estirão. Quando o contornou, Mestre ergueu os olhos e, petrificado, sim, petrificado!, viu aquele vulto como de alguém agachado à beira d’água. O coração disparou com o susto, o sangue fugiu do rosto, Mestre numa cara-branca. Não era verdade! Não, não era! Era? Possível?! Esfregava os olhos, incrédulo, as forças fugindo. Possível?! Possível, meu Deus, possível? Uma visagem, aquele Sadi à sua frente? Aquele Sadi que agora, candidamente, como lhe fora peculiar, riscava o chão com um graveto? O susto, o passamento, não foi pela possibilidade de ser aquilo uma visagem, mas por ser uma visagem de Sadi. Quer dizer, visagem-visagem não era. Era Sadi mesmo em carne e osso! Mas como? Quantas, quantas vezes em todos aqueles anos mestre não desejara ver Sadi, mesmo em visagem, saber o que ocorrera, o porquê daquele sumiço? Morrera? Pois que aparecesse! Por que não aparecia? Nem em sonho uma resposta, pista, por mais etérea que fosse, de Sadi. Nada, em tantos anos, até agora. Daí o torpor...
- Bença, seu Ambrósio?
- De... Meu De... Deus.. te... abençoe... É tu, tu, tu mesmo, Sadi? Mas... meu... fil..., disse, a modo mundiado, a mão no beiço da canoa para não cair.
- Sou, sinhô!
Ainda agachado e riscando, brincando com os desenhos, é que Sadi falava.
- Onde tu andou, Sadi?, perguntou mestre Ambrósio, a cabeça rodando.
Não respondeu. Sadi era assim mesmo. Sempre fora. A muitas coisas e situações atento, a outras não entendia; ou, levado por algum motivo muito particular a que ninguém atinava, não dava importância. Era lerdo, o mais das vezes, como se vivesse num mundo exclusivamente seu, numa esfera que em nenhum ponto entrava em interseção com o mundo dos demais. Um aluado. “Se faz de brôco, esse filho de uma égua!”, berrava encolerizado o velho Geraldo Soares, antes de Sadi desaparecer. Não respondeu. E foi o silêncio, a candura com que riscava e o sorriso inocente que disseram ao Mestre que sim, era mesmo Sadi. Só podia ser.
- Quero barro, seu Ambrósio.
Alguma dúvida que persistisse, aquele pedido dissipou. Sim, era Sadi! Sadi! Mas como? E aquele velho pedido!
- Mas tu ainda não perdeu essa mania, Sadi? Onde tu andou, meu filho? Quem te trouxe?
- Seu Ambrósio, onde tem barro? Quero barro...
Sim, era Sadi. Deus!, o que acontecia? Que mistério tão grande era aquele? Onde andara aquela criatura, o que fizera? Perguntas... Perguntas... Perguntas... Sadi, como sempre, não responderia. Só aquele riso de criança. E apesar de tantos anos passados, Sadi, curiosamente, não demonstrava. Era tão moço quanto quando sumira. E bonito! Continuava bonito! Mais bonito? Tal observação ergueu um calafrio no espinhaço de mestre Ambrósio. Confuso, já nem mesmo lembrou dos peixes e das malhadeiras pra consertar. Só o pensamento de botar Sadi na canoa ali mesmo e rumar com ele para algum ponto deserto rio acima ou abaixo. A cabeça rodava, o coração pulava como se fosse escapulir pela boca a qualquer momento. Teria coragem de aparecer com Sadi nas vistas de Marajupema? O que diria? “Achei Sadi no porto, pessoal.” Mas quando, quem iria acreditar? Não era então fácil-fácil o tomarem por mentiroso?, que sabia do paradeiro de Sadi o tempo inteiro e agora inventava desculpa para trazê-lo de volta, apesar de tudo? Uma tempestade é o que seria tudo aquilo. Uma tempestade pesada demais para Marajupema. E o lugarejo talvez não suportasse... Mas uma velha convicção, alicerçada ainda nos tempos de marujo, quando cortava o mundo a bordo dos vapores da borracha subjugados, muitas vezes, à fúria das baías, diante de quem a força do braço, o cálculo e o plano nada podem mudar, acendeu-se no espírito do mestre. Não é que certas situações, como as tempestades, desabam sobre nós independente de nosso querer? Obras da sorte. É sorte. Nascer, viver ou morrer é sorte. E a sorte se virava na volta de Sadi. Sadi, compreendeu o mestre naquele sonho-vigília-pesadelo, estava na sorte de Marajupema. Por isto voltara. Por isto também sumira. E se voltara era porque tinha que voltar. E se tinha que voltar, de nada adiantaria adiar-lhe a volta. Nem adiantava que seu Faustino o tivesse levado ao hospício. Era a sorte. A sorte lançada. Natural, como o rio que corria pra baixo, como o céu, acima, como a mata ao redor. E tudo de repente já lhe parecia natural: o alvoroço da manhã, do dia inteiro, desde que ele e Sadi apareceram no terreiro de Marajupema. O corre-corre, os benzimentos, os passamentos, os desconjuro pra uns, os louvado-seja-Deus, pra outros. Marajupema pasmado. E queriam porque queriam que seu Ambrósio desse definição daquele retorno. Do sumiço inteiro. E o velho se pôs a contar a história tim-tim por tim-tim como tinha ocorrido. O voltar das malhadeiras, Sadi no porto. Tudo! Mas como? Sim, mas como? Então Sadi não tinha virado capelobo? Mapinguari? Já não andava pela mata assustando caçadores? Já não era (nunca fora?) passarinho como o joão-perdido? Ou tinha desvirado? Mas porque? Sim, porque? E a frase de Peixe-Frito, pronunciada ao pé da orelha do Mestre durante a confusão, boiou sibilante na escuridão, como se outra vez segredada: “Ele vortô pra se vingá de Marajupema, seu Ambrósio”. Pra se vingar? Mas Sadi lá era criatura de maldade no coração? Sim, que muitos males havia feito - e, com eles, gente que lhe quis mal -, mas não de coração. Fez muitos inimigos, é verdade, mas tudo por causa daquela beleza de Mãe D’água. Os inimigos que a inocência e o destino lhe deram, estes, sim, lhe quiseram mal, muito mal. Mas ele mesmo nunca foi de guardar mágoa de seu-ninguém. Talvez nem lembrasse, se é que chegou a ter clara consciência dos ocorridos. Sim, mas por que voltara? Mestre sabia não dispor da resposta. Buscá-la era o mesmo que querer perguntar a Deus o porquê de Ele permitir uma criatura daquela no mundo. Fato inegável é que voltara. Estava em carne e osso outra vez, ressonando na varanda. Já não era capelobo nem passarinho como o joão-perdido. Voltara. Com as bênçãos que o acompanhavam, quem sabe? Marajupema bem que precisava. Mas também com a maldição? Ambas de parelha, como dantes? “Vortô, vortô pra se vingá. Vortô pra se vingá”. Ah, Sadi, então já não basta a malária que traz todo inverno? Por que não deixar que ela, que só ela, nos leve? Acaso não dará conta? A quantos não levou das beiras deste Gurupizão de meu Deus só no ano passado? E agora mesmo vá se fazer a conta de quantos já não tão na mão dela. O filho de D. Ângela, coitadinho, mal chegou da Pará e já tá aí morre-não-morre, a mangueira que cobre o cemitério dos anjos, de olho nele, se bem que já nem anjo mais é. Sim, que mais-dia-menos-dia a bicha dará conta de todos nós. Acaso vieste em seu auxílio? Porquê? Já não anda consumido por demais este povo, meu filho? Sadi salta de repente no juízo do Mestre, o rosto aberto num sorriso. Não o Sadi que agora voltava, mas o que se fora. Serão os mesmos? Aquele que nas bocas-da-noite ouvia o Mestre contar estórias. Meu padrinho, agora conte aquela de quando os bichos falavam... Ainda gostará de estórias? Um desassossego, é o que era aquela sua volta. Um novo fustigar de entranhas. E esse mistério... Ah, quantos anos, Senhor-nosso? Quantos anos sem um cristão lhe botar os olhos, os ouvidos! Nem um piado, um estalar de folha seca no chão, de Sadi! E agora... Lá não estava ele outra vez, rente à água, riscando e pedindo barro? Ah!, e depois do sumiço Marajupema não foi revirado dos pés à cabeça? Houve então capoeira, moita, coivara, tronco de pau a quem não se perguntasse por Sadi? O rio, talhado por canoa de riba a baixo, do Pará ao Maranhão, daqui pra lá, de lá pra cá, estirões a fio, perguntado por Sadi. Mas, quede sombra? Procurou-se na ilha, na cachoeirinha, no remanso das pedras, nos redemoinhos... a esperança (e o medo) de que, quem sabe, até mesmo seu cadáver pudesse brotar num rebojo (te desconjuro!)... Nada! Os homens tiveram que deixar o mato crescer nas roças, as caças quietas na mata, os peixes nadando no rio para rumarem mata adentro a bater sapopema, a assoprar buzina de chifre. O cuidado, o temor, melhor dizendo, não exigia?
A este pensamento seu Ambrósio desperta, ou sonha despertar?, puxa um suspiro fundo, um quê ácido de mágoa lhe queimando a alma. Pois se Marajupema procurava por Sadi, se o queria achar, sabia o mestre, não era por amá-lo, mas por que perdê-lo poderia desaguar no fim dos dias fartos, como sempre se soube. Sadi abençoava o lugar. E, que nada! Quem viu sombra? Não era deste mundo. Disso todo mundo sempre soube. Sadi tinha alguma merecendência do céu. Não, não era, nunca foi gente como as que pisam este chão. Aquela sua beleza, aquela sua inocência – escritinho um passarinho -, aquele seu lidar com santos, aquela vocação... Sadi não protegia Marajupema? Não lhe cobria de fartura? Com ele ali a terra, a mata, o rio, acaso sovinaram alguma vez? Escassearam, escassearam? Hoje escasseiam até piaba! Cotia!, que os tempos mudam... O rio anda mascarado, estrangeiro. Mas no tempo de Sadi, ah, era ver! Quanto veado, quanto peixe, quanta mandioca! Tempo de Sadi era tempo de fartura. Por isto era aturado, apesar de tudo..., pois que não era todo agrado. A bondade que lhe acompanhava se rodeava de uns quantos desgostos. E de quantas dores Marajupema se vergou, se queixou! Mas será que nada existe de todo-todo bom? Então tudo tem que ser dado de meia, como naquela estória do tempo em que Nosso Senhor e São Pedro andavam no mundo e se hospedavam na casa do homem pobre e bondoso, que depois bastou enricar pra ficar mau? Mas sim, um dia Sadi anoiteceu e não amanheceu. De início ninguém cuidou. Sadi costumava ficar pelos barreiros. Às vezes passava três, quatro dias pelos matos atrás de barro. Mas a demora foi grande, começou a incomodar. E procura daqui, procura, gente!, Sadi tá perdido! E o tempo passou. Vai ver virou passarinho que nem o joão-perdido, virou capelobo como Caró, o índio que de tão velho e pagão virou capelobo. Sadi, agora, como Caró, vivia assustando os caçadores pela mata, comendo mosquito? Coló teve que subir num pé de pau certa vez e ali passar a noite, um capelobo espreitando em baixo. O bicho só desistiu de madrugada. Espalhou-se a notícia de que era Sadi. Vai ver que aquela sua beleza de Mãe d’Água, tão buliçosa do juízo das filhas e mulheres, agora virou feiúra de capelobo. Sadi, mapinguari? A boca no umbigo, o sopro derretendo o cano das espingardas? Ou subiu na carruagem de fogo, como o profeta Elias, no dizer de Peixe-Frito e de Seu Tomás? O certo é que sumiu. Quem ainda achava que ia ver aquele Sadi, meu Deus? E quando o lugar já se tinha acostumado, voltou. E por que voltou? Marajupema não tava melhor assim, uma ou outra dificulidade, mas sem a vergonha, sem os tristumes, sem a dor que causava? Era então o destino de Marajupema andar de jugo com o de Sadi? “Vortô pra se vingá. Vortô. É como o profeta Elias que vai vortá pra lutá com a Besta-Fera.”

IV

Foi a algazarra das pipiras e senhaçus dando nos mamões e goiabas maduros do terreiro quem avisou ao mestre que o dia, finalmente, chegava. O barulho, inicialmente distante, foi se aproximando à medida em que o velho se afastava daquele torpor de pensar. Não dormia, mas tornava de lento à realidade como quem acorda de sono intenso. Sentia-se mofino. Ficou ainda algum tempo na rede, um desconsolo na vontade... Pensou em ir ao estaleiro. Tinha que terminar o batelão de D. Ângela. O prazo de entrega se aproximava. Precisava levantar, partir uma lenha. Fez alguma força, o corpo não queria. Aquietou-se no fundo da rede, os olhos na palha da cumeeira, o dia varando pelas frestas. Começou a notar então que o barulho, antes oco e difuso, agora se concentrava em certos sons e lugares, de modo que, além dos passarinhos, ouvia também, pro rumo do caminho do porto, certamente, na lagoa, a cantoria das jias: “Ei!, Oi! Foi? Não foi. Vai? Cheguei!” Concluiu com agrado que a lagoa estivesse cheia depois do temporal caído à noite. Perto, no terreiro, uma voz granhenta ralhava: “Cuche!, porco!” Velha Pituca!, pensou o mestre com enfado. Por trás de tudo, um uivo longe de cachorro perdido no outro lado do rio. Apesar de mofino, resolveu levantar. Prendeu a rede no punho sem desatá-la e saiu do quarto. Destampado, o resto da casa já estava todo invadido pelo dia. Mestre não sabia discernir se sonhara ou se na verdade pensara a noite inteira. O certo é que sentia dores doendo pelo corpo. Voltou ao quarto, ligou o rádio, tornou a sair.
O aparelho, um Semp em armação de madeira, quantos anos acompanhando seu Ambrósio por aquelas beiras de rio?, a quantas alagadas não escapou?, jorrou, por entre chiados e oscilações de sintonia, uma música que foi um cosmético naquela face mal dormida da manhã. Era um merengue, ritmo costumeiro no horário. O ritmo sacolejado ganhou pureza e se foi esquivando por entre as palhas da parede, varando terreiro afora, se diluindo no dia num esforço de lhe tirar a careta de chumbo, de varrer aquele ar de tapera. Cupins em sobrevôos caíam por todo o terreiro causando um frenesi entre as galinhas. Mestre tomou o machado. Não tinha lenha rachada para o fogo do café. Sadi, como se descansando de longa viagem, ainda ressonava na rede estendida na varanda. E a beleza dormida, vista pelo Mestre num relance, instante em que erguia o machado, lhe doeu como se o ferro, em vez de golpear a lenha, em sua alma é que acertasse. Foi a combinação da face dormida com o ângulo em que se mostrou, o que cutucou, na alma do Mestre, coisas que há muito, muito tempo, relutante, sepultara. Ah, aquela beleza! Aquela beleza gulosa que tudo reclamava para si, em quem todos os olhares se tinham mundiados, e que a tantas moças e mulheres roubara o juízo e a tantos maridos a paz, agora prendia o olhar do Mestre em si para arrastá-lo até a lonjura daqueles dias sombrios engolidos pelo tempo. E pensou consigo se tudo não seria agora terrivelmente regurgitado.

19 comentários:

clarice disse...

Edilson, acertaste em dizer que não é um poema, é vida vivida que vai além do poema.
Estou roubando teu texto para ler com calma... rsss
Volto depois.
Carinhos pra ti

Mauro Castro disse...

Texto longo qual suspiro em velório.
Há braços!!

Marconi Leal disse...

Muito bom, como sempre. Obrigado pela visita e pelas palavras. Grande abraço.

gdec disse...

V. escreve como se deve respirar. Sem uma inspiração a mais; sem uma expiração a menos.
É tão bom que tenhamos na nossa língua cidadãos como V. !

gdec

Anônimo disse...

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The third premiere of "The Bible" series was aired on the History Channel, March 17. This episode ended with the Old Testament and began the New Testament. So far six of the ten hours of series have been completed with only four more hours left in the next two episodes.

Although many stories were removed in the original The Holy Bible, what do you think the televised presentation would be like, if it showed the removed stories?
One removed book includes the Acts of Paul and Thecla

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