segunda-feira, abril 23, 2007

O CHAMADO

Imagem retirada da internet e manipulada
A colônia acordou no meio da noite como se já fosse cinco da manhã. E não era. Tanto, que ninguém pensou em barco. Não se amolou ferro, carregou redes ou vestiu roupas de pesca. Além do mais, quando amanhecesse seria domingo. E domingo não se pensa em trabalho no vilarejo. Domingo é sagrado. Mas a verdade é que nenhuma alma permaneceu adormecida. Nem um corpo deitado. Nem mesmo os três recém-nascidos, cujo choro ajudou a acordar a todos ainda mais rápido. Um barulho infernal. Não o dos pequenos, mas aquele, vindo, vindo de onde mesmo? Seria do mar? Um navio? Mas que navio mais desesperado seria esse? Correram para a enseada. Um navio jamais estivera na enseada. Nem poderia. Não havia canal. Então é isso! Haveria um navio encalhado na enseada? A noite escura não deixava ver. Se havia um navio na enseada, tinha todas as luzes apagadas. Mas, espere! O barulho não vinha do mar... Não, não vinha. Vinha, escutem!... O barulho vem da terra... Da terra? Vem do mato! O barulho vem do mato! Mas como? Sim, o barulho ameaçava romper o mato e, de uma hora para outra, atravessar a colônia. E então, ante os olhos estupefatos da colônia, a coisa atravessou o terreiro e se foi serpenteando mil vagões ao som do barulho louco. Em pouco não era mais que um zumbido longínquo perdido entre as montanhas, ao norte. Um trem também não poderia atravessar a colônia. Não havia trilhos. Por isso, embora tenha depois voltado a dormir, a colônia nada entendeu. Só eu permaneci acordado, um esforço enorme de compreender aquele desejo de ser maquinista.

7 comentários:

diovvani mendonça disse...

Cá estou atendendo ao seu chamado e levando suas letras que merecem atenção para ler em casa.
Seu livro, já está emprestado com o 5º amigo. AbraçoDasMontanhas

clarice disse...

Desejos brincam barulhentos dentro da gente mesmo que ainda incompreensíveis. Desejos de romper a casca do ovo. Desejos quem sabe de partir. Talvez de ser timoneiro absoluto da embarcação que nos leva vida afora. Desejos nos movem...
Este chamado me lembrou "O homem do farol". Como vai ele?
Edilson, não li ainda o post anterior, fico 'me' devendo este prazer... Meu tempo anda numa escassez (mas aproveitado ao máximo).
abraço e meu carinho

Pedro Paulo Pan disse...

, hoje pilota palavras, textos, frases...
, abraços meus.

marcos pardim disse...

nada como um feriado pra leitor resfolegante poder se dar ao luxo de te ler com atenção e sem presa. li aqui que sadi voltou. os mestres sabem que "sadis" sempre voltam. por vezes, voltam à toa, por nada e para nada. noutras, pra reacender certos desejos. como o de ser maquinista, por exemplo. e botar nos trilhos a desgovernada maria fumaça de nossa existência. 1 grande abraço.

gdec disse...

Li as coisas mais pequenas com atenção e me
agradaram muito.
Estou um pouquinho escaldado com a blogosfera porque a maior parte é constituída por aqueles que julgam que fazer poesia é por algumas palavras difíceis umas por debaixo das outras. É claro que há as excepções e algumas delas bem surpreendentes.
Imprimi agora o seu trabalho maior e depois lhe direi o que penso .
Até lá.

gdec

rafaelnolli disse...

Edilson, meu camarada! Deixa eu te dizer: estou fazendo Letras e quero fazer minha monografia sobre o mundo literário dos blogs. Estou querendo entrevistar alguns poetas e dedicar um capítulo a romancistas que publicam sequencialmente em blogs. Estou esperando o projeto ser aprovado e tudo mais. Queria muito te entrevistar. Não é novidade nenhuma o quanto apreciei o teu livro! Infelizmente, sem net em casa, e correndo muito ando afastado dos blogs. Me diga algo sobre esse assuntyo, sim! Abraços!

JUCELENE FERREIRA disse...

Adorei "o chamado" que bom q existem pessoas como vc na nossa literatura. Abraços.