terça-feira, fevereiro 06, 2007

O SAGAZ E DESTEMIDO: A HISTÓRIA DO MANUSCRITO


Meu primeiro contato com a história do Sagaz e Destemido ocorreu em dezembro de 1979, através de seu Afonso, velho pescador de Marajupema, com quem eu gostava de passar férias escolares. Era madrugadinha. Salpicado de espuma, o rio deixava subir aquela neblina fresca de tranqüila evaporação. Íamos despescar as malhadeiras, redes de pesca, da boca do Coraci, cerca de um quilômetro acima do porto. Seu Afonso na frente, eu no piloto do casco. Entre uma e outra baforada do porronca, cigarro brabo, e algum descanso do remo na borda, falou do vaso que, tempos atrás, bote tempo, encontrara enterrado na Serra Grande. Dentro, tabuinhas de argila onde se cunhara ou pintara estranhas letras. Seu Afonso era experiente, íntimo das visagens de fora-de-hora. Me falava vez em quando das coisas que via. Os mistérios.
Falou da tradução feita por Tanurú, um kaapor seu amigo lá de cima, das aldeias. Depois, em casa, ante a insistente curiosidade de meus dez anos, mostrou-me, cheio da cerimônia com que sempre mexia nos guardados ou defumava as malhadeiras, mostrou-me uma, só uma, das tabuinhas. Vi a escrita e, de longe, o velho vaso sujo de tempo.
Mostrou também o que, ouvindo a tradução oral de Tanurú, garranchou a lápis no velho caderno de fiados da cachaça, querosene, açúcar e coisas mais que vendia aos caboclos. A história ficou. A lembrança junto com a dúvida. Passou-se.
Mas em 1997, quando Diários Índios foi lançado, livro onde Darcy Ribeiro narra a viagem que fez em 1950 às cabeceiras do Gurupi, inclusive, a passagem por Marajupema (p. 79), eis que me aparece ninguém mais, ninguém menos, que Tanurú, a quem Darcy Ribeiro chama carinhosamente de intelectual índio: “Esse Tanurú é outro caso extraordinário de um intelectual índio. Pequenininho, feio, tem uma mente luminosa. Domina, como ninguém, o patrimônio mítico de seu povo e é capaz de dizê-lo da forma mais clara e sensível. Aprendi com ele, com Anakanpukú e outros índios com quem trabalhei, a apreciar e admirar esses intelectuais iletrados. Eu os conheci também entre lavradores e pioneiros pobres, ainda que menos vivazes, porque dominados pela idéia de que os saberes pertencem aos doutores. Intelectual, para mim, é pois aquele que melhor domina e expressa o saber de seu grupo” (p. 546).
Pois, sim, anos depois, dado meu interesse pelo mito de Atlântida, mito cuja fonte ocidental mais remota é o Timeu, de Platão (séc. V a. C), me deparei com um livro de Berlitz onde, numa das páginas (138), se mostra, para efeito de comparação, antigos escritos encontrados no Vale do rio Indo (Paquistão, Ásia), e escritos, também antigos, achados na Ilha de Páscoa, datados de não poucos milhares de anos. A ilha de Páscoa fica no oceano Pacífico e pertence ao Chile! A escrita que vi na tabuinha, lembro bem, tem grande semelhança com as destes escritos...
Com isto quero advertir que nem a história a seguir, nem o texto, são meus. Eu os recebi em 2004, quando, após vinte anos sem ir a Marajupema, lá tornei para rever parentes e velhos amigos, pouquíssimos, ainda vivos. Seu Afonso, desde os anos noventa, não mais entre eles. Antes de morrer, entregou a meu padrinho, hoje com noventa anos e muito parecido com mestre Verequete, um pequeno embrulho e o pedido de que não se o abrisse e só a mim fosse entregue, caso lá voltasse. A gente antiga, sabe-se, costuma respeitar essas coisas. Ainda mais se recomendado por seu Afonso...
Devo dizer que apenas tomei a liberdade de, não sabendo como escrever ou pronunciar o estranho nome do Sagaz, chamei-o pelo que mais próximo me pareceu. A história, como à frente se verá, foi escrita por um dos que o acompanharam (como Lucas a Paulo) e cujo nome também alterei. Sobre o manuscrito de seu Afonso, é triste dizer que, dia desses, a moça, desavisada que é, julgou sem importância o velho e roído caderno encontrado no chão, rente a minha mesa, e não pensou duas vezes antes de juntá-lo ao lixo. Eu, que terminara de digitar o teor e saí para algo ligeiro, ainda fui à frente da casa remexer a lixeira, quando retornei. O caminhão já havia passado. Paciência.
Paciência que também peço a ti, leitor, caso estranhes o estilo um tanto empolado ou imperito para teu gosto, alguma extravagância de humor e coisas mais. Não os imputes a mim, mero copista, mas a qualquer dos três - ou ao conjunto - que antes se envolveram com a história: Tanurú, responsável pela tradução; seu Afonso, que a fixou nos garranchos; e O Lendário, que consta ser o escriba original.


P. S.: Por razões de espaço, publicarei aqui apenas esta introdução à História do Sagaz. Abraço a todos!

12 comentários:

diovvani mendonça disse...

Amigo Edilson, li tudo e estou aqui bem curioso. Já cliquei pra tudo que é canto e cadê? Arrume espaço, estou com a pulga atrás da orelha.
Darci Ribeiro? Pô, é um dos caras que até hoje sou fã. Lembra, quando ele fugiu do hospital? Disse que era pra escrever um livro. Ele era foda e tá fazendo muita falta. MontanhosoAbraçoDasMinas.

Clarice disse...

Edilson, tomei a liberdade de colocar uma frase tua em meu post. Só agora percebo que ela não está mais aqui e peço que me avises se queres que eu a retire (por qualquer razão que tenhas).
Abraço meu

clarice disse...

Lisonjeada fico eu por tua delicadeza comigo. Qual é o teu orkut? Busquei por teu nome mas não localizei.
(Depois venho te ler com calma)
bjs

Claudio Eugenio Luz disse...

A introdução já despertou o meu interessa; como sempre, grandes novidades à vista.

hábraços

ana maria costa disse...

aguardo o desenlaço da história.

marcos pardim disse...

ouvir, mais até do que contar, histórias faz parte de meus cantares de perda e predileção. sou todo ouvidos, meu caro.
1 abraço

paulo vigu disse...

Salve Edilson - História interessante, hein! E o resto? Lamento com você a sua saída rápida e o material ter ido ao lixo. Sei o que é isso. Já jogaram coisas minhas que lamento até hoje. Riodaqui deixa o abraço aí - Paulo Vigu

Ceci disse...

Edilson, Estou mais que curiosa pra acompanhar o desenrolar dessa história, que tantos ensinamentos tem a nos dar. Aguardo sua disponibilidade para desvendar o Sagaz. Abraços.

diovvani mendonça disse...

Amigo, estou aqui ainda cuirioso. E não me venha com essa história de "falta de espaço" hem? AbraçoDasGerais.

Pedro Pan disse...

, pantoja eu fiquei triste aqui por ter perdido o manuscrito. que além de tudo, tinha o valor sentimental.
mas olhando por outra perspectiva, parece mágico isso, parece não, é! ...
|abraços meus|

CeciLia disse...

Liazinha aqui, sentada, esperando o desenrolar da história. Aaannnda, Edilson, que coisa, menino, essa desculpa do espaço. Escreve logo, vai?!

Abraço, logo volto. Ah, o Mambembe está bem interessante também.

Anônimo disse...

ler todo o blog, muito bom