terça-feira, agosto 24, 2010

VERTIGEM E SIGNIFICAÇÃO


11
Consideração (esboço) sobre a relação entre filosofia e literatura


Eu vejo filosofia e literatura como vejo cada um dos demais fazeres humanos: eu as vejo como tentativas de significação. Como tudo que é humano, elas brotam de uma vontade de sentido. É que, me parece, cada ato humano, desde os mais simples da vida ordinária até os mais refinados e complexos, têm como função imediata o seguinte: revestir de sentido aquilo que por si mesmo não tem: a existência.
Como bem o constataram sábios da envergadura de um Charles Sanders Peirce, a cultura, de modo geral, é um grande e complexo sistema de signos. Nela tudo significa. Qualquer elemento pode conduzir a uma pista do que se passa no grande comércio das relações humanas. Mas não é por esse caminho de pensar atos culturais como elementos de comunicação, nesta perspectiva, o que me leva a esta incursão peculiar pela, digamos, semiótica. Para mim, a cultura, a civilização, os feitos humanos, corriqueiros ou grandiosos, são, antes de tudo, sintoma. Sintoma de uma ausência: a ausência de sentido para a existência. São, ao mesmo tempo, tentativas de preenchimento desta ausência. Daí eu ter dito acima: tentativas de significação.
Esta Ausência, este Nada, espreitava o homem, mal ele deu o primeiro passo para fora da Natureza. E o próprio homem não será outra coisa senão uma consequência desse encontro e desse convívio. Pois, como dito, a cultura, a história, enquanto sintoma, é também o horizonte no qual o próprio homem se faz e, fazendo-se, constrói formas de proteção contra aquela Ameaça Silenciosa. Primeiro vieram as lanças e ferramentas de pedra, as primitivas comunidades protetoras, a linguagem, que dá ao homem a ilusão de não ser só... Depois vieram mais instrumentos técnicos, também os deuses, os mundos além, as metafísicas, as artes, a filosofia, a ciência, enfim, a Civilização. Não obstante, a Ausência continua . A história da civilização é a história desse convívio e dessa luta. As especulações atuais acerca da clonagem humana ou mesmo da chamada inteligência artificial, em que já se cogita a substituição do orgânico pelo sintético, ilustram bem o que quero dizer.
Mas a filosofia e a literatura, como a arte em geral, não são tentativas de significação no mesmo nível dos atos ordinários, da técnica ou da ciência. Elas não são um mero fazer. Ao contrário! Enquanto se utilizam da linguagem para representar o próprio homem em seu trânsito significativo, elas se constituem meios privilegiados de significação. Meios nos quais o homem pode se ver, sondar seu destino e enfim aceitá-lo.
Diferentemente de todos os demais modos de significação, filosofia e literatura não são necessariamente rotas de fuga, mas meios possíveis de condução do homem ao seu ser-próprio, ao seu destino.
Destino, conforme aqui concebido, é o ser-próprio do homem. É o Não, é aquela Ausência que desde o início o espreita e o obriga a significar. É bem verdade que o homem pode nunca reconhecê-lo. Pode também, reconhecendo-o, recusá-lo e empreender rotas de fuga em busca de garantias, como, aliás, tem feito a maioria das vezes, seja na história da espécie, seja na história do indivíduo.
Em qualquer dos casos, porém, seja aceitando o destino, seja recusando-o, o certo é que daquele Não continuará a brotar a cultura e a história. O que mudaria, certamente, no caso da aceitação, seria a saúde do homem, a relação dele com a vida. Mas este talvez seja um passo impossível. É que ao ser-próprio não se chega antes de uma séria decisão, de grandes recusas, e de uma revolução pessoal.
No caso da literatura, o trânsito para o destino ou para longe dele é mostrado por meio de imagens, onde se representam, com personagens e situações, os homens na busca por significados, estes aqui pensados como garantias contra aquela Ameaça. No caso da filosofia, a questão do destino é posta em evidência mediante um trabalho conceitual, abstrativo, em que se busca compreender os próprios fundamentos da busca, isto é, da essência do significar, bem como apontar caminhos, propostas de sentido. Em ambos os casos, seja com o exemplo, seja com o conceito, está em jogo a perspectiva essencial dessa luta e dessa busca.
Mas essas distinções não opõem necessariamente as duas formas de representação, como, aliás, nos mostram a história de ambas.
Em todo caso, o destino do homem, o ser-próprio, tem a ver com a existência. Mas a mera existência, como suposto, não implica necessariamente a aceitação do destino.

4 comentários:

gdec disse...

Meu caro Pantoja
Não sei bem como, perdi-lhe o rasto.
Coisa grave que não diz nada bem da minha cabeça .
Não sei se recebi o seu convite para o lançamento do seu livro mas ,de qualquer modo, ele está aqui e, por isso, não podia ser ignorado .
Creio e espero que o lançamento tenha sido um êxito como o livro merece -muitíssimo- .
Ao contrário de mim, o meu amigo mantém-se atento
até para as minhas coisinhas como vi, à margem.
Vou ver se consigo por o link deste blog no meu. Já lá esteve mas desapareceram todos ,não sei bem como . Estou agora a recuperá-los .
Um abraço de muita amizade meu distante amigo
Geraldes de Carvahlo

CeciLia disse...

Edilson,
Que prazer, receber tua visita atravessando a minha ponte, no Lua. (ou na Lua? Pode ser, também, lugar onde os poetas, por vezes põe a cabeça). De qualquer modo, vou atrás das referências de que me sugeriste a leitura. Sobre teu texto: adorei a forma, o tema, a pertinência. A propósito dele, sugiro-te a leitura dA Espécie Fabuladora, de Nancy Huston, L&PM. Estuda s necessidade tão humana de fazer narrativas, significar-se através deleas, reais ou ficcionais.

Um beijo, saudade de te ler mais. Mas Lèvinas e Foulcault... mas Kierkegaard e Adorno... nesse semestre não me permitiram. Boas companhias, eles também.

Ah, quero o teu livro, viu? Como faço para adquirí-lo?

Lembranças aos teus amados.

J. Bentes disse...

ê, professor, terminei de ler o livro. terminei sendo um dromedário.

Hilton Valeriano disse...

Gostaria de saber se posso postar essas considerações em meu blog. Seria uma honra. Um abraço.